Vigilância molecular da Tuberculose multirresistente em Portugal

24-03-2021

O Laboratório Nacional de Referência de Tuberculose (LNR-TB) do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) tem atualmente capacidade instalada para fazer uma previsão de resistência aos antibacilares de primeira e segunda linha em cerca de uma semana após isolamento cultural, em vez dos vários meses necessários para um antibiograma fenotípico completo. Os resultados moleculares obtidos dos casos de tuberculose multirresistente (TB-MR) são fundamentais para efeitos de adequação terapêutica e vigilância epidemiológica.

Em Portugal, desde 2014 que existem centros de referência para os casos de TB-MR, com profissionais dedicados que fazem o seguimento dos doentes e centralizam a informação das entidades de Saúde Pública e do LNR-TB. Dado que todas as estirpes de Mycobacterium tuberculosis complex, isoladas dos casos de TB-MR, são enviadas ao INSA para efeitos de diagnóstico de resistências e vigilância, o LNR-TB desenvolveu metodologias de sequenciação de nova geração de forma a permitir um diagnóstico mais rápido destes casos particulares.

No âmbito da sua missão, o LNR-TB faz a vigilância sistemática de todos os casos de TB-MR e desde 2016 que não se detetam clusters moleculares. Os casos recentes estão relacionados com casos de anos anteriores, alguns com espaçamento de mais de três anos, o que se pode dever a uma reativação de um contacto ou à prevalência de uma determinada estirpe que se mantém em circulação.

“Embora o tratamento seja obviamente mais demorado nos casos de TB-MR, espera-se que o risco de infecciosidade não seja aumentado relativamente aos casos de TB sensível, principalmente se a terapêutica instituída for a adequada, pelo que o facto de não existirem casos de transmissão recente nos últimos anos é um indicador muito favorável”, sublinha Rita Macedo, responsável pelo LNR-TB do INSA, em Lisboa, acrescentando que a “implementação deste sistema de monitorização e vigilância de casos permitiu aumentar a eficácia dos programas de controlo e medidas de prevenção e formação adotadas pela Direcção-Geral da Saúde”.

Segundo dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), na zona Euro, foram notificados 49.752 casos de TB em 2019, continuando a tendência decrescente desde 2010, sendo que destes, 834 eram casos de TB-MR. Sendo que a maioria das mortes por TB poderiam ser prevenidas com acesso a diagnósticos atempados e tratamento eficaz, a introdução de testes moleculares para diagnóstico rápido de TB-MR pode ajudar na prevenção da transmissão destes casos e permitir uma melhor adequação terapêutica.

Com mais de 10 milhões de doentes e 1.7 milhões de mortes em 2019, a tuberculose continua a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade por doença infeciosa a nível mundial. Estes dados são agravados pela ausência de diagnóstico e notificação dos casos, estimada em 3 milhões de casos em 2019, que aumenta nos casos de TB resistente aos antibacilares.

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