Início da epidemia de COVID-19 em Portugal caracterizado por disseminação massiva de variante do SARS-CoV-2 com mutação específica

28-09-2020

O arranque da epidemia de COVID-19 em Portugal foi marcado pela disseminação massiva de uma variante do SARS-CoV-2 caracterizado por uma mutação específica no seu principal antigénio, revelam os resultados de um estudo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) sobre a diversidade genética do novo coronavírus. Outra das conclusões deste trabalho sublinha a importância das medidas de saúde pública tomadas no início da epidemia, as quais terão evitado a propagação desta variante genética a outras zonas do país.

O “Estudo da diversidade genética do novo coronavírus SARS-CoV-2 (COVID-19) em Portugal”, projeto de investigação de âmbito nacional coordenado pelo INSA, tem como objetivo monitorizar a diversidade genética do SARS-CoV-2, especialmente durante os primeiros meses da epidemia. Os primeiros resultados deste estudo indicam que o início da pandemia em Portugal caracterizou-se pela disseminação massiva de uma variante do SARS-CoV-2 com uma mutação específica na proteína Spike.

A proteína Spike tem sido foco de investigação em todo o mundo dado ser responsável pela ligação do vírus às células humanas, permitindo a infeção, sendo o principal alvo de estudo para o desenvolvimento de vacinas. Esta variante “D839Y” do SARS-CoV-2 terá sido importada de Itália em meados de fevereiro, tendo circulado na região Norte e Centro do país de uma forma despercebida, mais de uma semana antes dos primeiros casos de COVID-19 terem sido diagnosticados, permitindo a sua propagação insidiosa.

“Estimamos que, durante a fase exponencial da epidemia e em particular entre 14 de março e 9 de abril, a variante de D839Y tenha causado cerca de 3800 infeções, ou seja, 25% do total de casos confirmados de COVID-19 em Portugal”, explica o investigador João Paulo Gomes, coordenador deste trabalho, cujos resultados se encontram em fase de submissão a uma revista científica da especialidade.

O exemplo mais notório da disseminação desta variante genética é o caso do concelho de Ovar, onde a implementação de uma cerca sanitária terá evitado a propagação desta variante genética a outras zonas do país. “Apesar da identificação desta variante genética em 11 distritos, foram estas medidas rigorosas na região Norte e Centro, onde a sua circulação foi massiva, que evitaram a sua disseminação ao sul do país”, sublinha João Paulo Gomes.

“Estes resultados permitem ilustrar, de uma forma inequívoca, como a utilização dos dados genómicos podem constituir uma ferramenta de conhecimento em termos de saúde pública”, refere ainda o investigador do INSA, acrescentando que “este tipo de análise retrospetiva, feito a uma escala sem precedentes em Portugal, pode ser utilizado como ‘trunfo’ de combate em situações futuras, seja numa segunda vaga de COVID-19, seja em outras eventuais epidemias”.

Os estudos de base genética, nos quais, para além da identificação da sequência genética do SARS-CoV-2 (“impressão digital do vírus”) que infetam a população, se recolhem também dados epidemiológicos, permitem obter conclusões com vista a uma melhor caracterização da pandemia. Entre estas conclusões estão, por exemplo, a identificação do número de introduções da infeção em Portugal, a sua origem durante a fase exponencial da epidemia e a identificação das variantes (“mutações”) com maior impacto na população.

Financiado no âmbito da primeira edição do programa de apoio Research4Covid promovido pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica, o “Estudo da diversidade genética do novo coronavírus SARS-CoV-2 (COVID-19) em Portugal” conta com a participação de mais de 60 hospitais/laboratórios de todo o país. No âmbito deste estudo, já foram analisadas pelo INSA, até ao momento, 1785 sequências do genoma do novo coronavírus.

O INSA tem feito a divulgação científica dos resultados deste estudo através do site “Diversidade genética do novo coronavírus SARS-CoV-2 (COVID-19)”. Para mais informações sobre estes resultados, consultar o último relatório de “situação” da diversidade genética do SARS-CoV-2 em Portugal ou o artigo submetido para publicação “On the track of the D839Y mutation in the SARS-CoV-2 Spike fusion peptide: emergence and geotemporal spread of a highly prevalent variant in Portugal”.

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