Coordenadora do Inquérito Serológico Nacional 2015-2016 destaca avanços alcançados pela vacinação em Portugal
03-11-2017
A coordenadora do Inquérito Serológico Nacional (ISN) 2015-2016, promovido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, através dos seus departamentos de Doenças Infeciosas e de Epidemiologia, considera que os avanços alcançados pela vacinação em Portugal justificam alguns dos resultados encontrados no ISN 2015-2016. Paula Palminha destaca também as mudanças que aconteceram na comunidade desde o último inquérito.
“A ausência de circulação de determinados vírus numa comunidade, em virtude da população dessa mesma comunidade estar vacinada contra os mesmos, leva a que não ocorra um reforço natural da resposta imunológica por contacto natural com o agente infecioso, o que conduz a uma diminuição, ao longo do tempo, da concentração de anticorpos contra esse mesmo agente”, explica Paula Palminha. “E esta pode ser uma das justificações para a diminuição de pessoas sem anticorpos em alguns grupos etários”, acrescenta.
Paula Palminha refere também que desde o último ISN (2001-2002), Portugal registou “uma grande alteração na comunidade”, a qual está relacionada com “a ausência de circulação de alguns vírus”. Assim acontece com o vírus do sarampo, cuja circulação em Portugal não existe desde 2003, tirando os casos importados e que estiveram na origem da epidemia de sarampo iniciada em fevereiro e considerada controlada, a 5 de julho, pela Direção-Geral da Saúde e pelo Instituto Ricardo Jorge.
De acordo com os resultados do ISN 2015-2016, “94,2% da população estudada tem anticorpos contra o vírus do sarampo, valor muito idêntico ao observado no ISN 2001-2002”. “Contudo relativamente a este estudo verificou-se que só nas crianças com idades compreendidas entre os dois e os nove anos e nos adultos com idade superior a 44 anos, correspondendo aos indivíduos vacinados com VASPR [vacina] e aos que desenvolveram imunidade natural, é que a proporção se seropositivos é igual ou superior a 95%”.
Para a coordenadora do ISN 2015-2016, esta “fotografia” demonstra as alterações ocorridas na comunidade em termos de circulação de agentes, nomeadamente a ausência de vírus que provocam doenças como o sarampo, mas também o tétano. No caso do tétano, todos os indivíduos analisados demonstraram terem anticorpos, embora, nalguns grupos etários, numa concentração inferior à detetada em 2001-2002.
Estes sinais deverão agora ser analisados pelos decisores políticos, defendendo a coordenadora do ISN 2015-2016 que a principal “marca” da investigação seja a mudança da comunidade, em termos de circulação de agentes, nomeadamente o contacto da população com os mesmos. O relatório do inquérito refere que, em Portugal, tal como em outros países, “a implementação do Programa Nacional de Vacinação (PNV) em 1965 resultou para a população portuguesa em benefícios inigualáveis”.
“Os resultados do ISN 2015-2016 demonstram que os 50 anos de implementação do PNV em Portugal tiveram como consequência uma elevada proporção de pessoas imunizadas relativamente às doenças abrangidas por este programa. Estes resultados estão em concordância com as elevadas taxas de cobertura vacinal e a ausência de casos das doenças em causa”, refere também o relatório.